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ARTROSCOPIA
-Respire fundo, calmamente....Agora me diga onde você mora?
-......eu..moro aqui em........aqui próx...hummmm
“Havia uma névoa se dissipando. Era clara, quase fina se pudesse, com um leve odor almiscarado. Quando se foi de todo, ao longe havia um clarão intenso e vivo, mas não de doer os olhos. Ficava ainda mais forte na medida em que se caminhava ao seu encontro, era hipnotizante, cativante, amansador. Num instante de segundo viu toda sua vida passar e se prendeu às agruras, aos erros, aos desencantos, às decepções recorrentes. Em um brilho de magia uma lágrima de arrependimento por seus pecados, que fossem, bastou para nunca mais assolarem sua paz, renascia melhor a cada passo que dava. Estava como se banhado por bálsamos de luzes, pego no colo, despido dos medos e assim deixou-se ser seduzido, possuído pela cúpula que lhe envolvia. Sentiu que não havia mais peso sobre os ombros, nenhum físico, nem mesmo os da alma. Caminhava sem pressa de chegar a qualquer lugar, era como se pisasse em flocos de algodão. Todos que lhe viam passar acariciavam seu coração apenas com sorrisos belos por serem verdadeiros. Relembrava seus dias de plena felicidade em desregradas gargalhadas e sentia que era como se fosse um gozo constante cada passo, cada lembrança boa. Olhou para um dos cantos, viu uma pessoa que conhecia, mas ninguém possuía rosto, sequer forma, era uma abstração. Trocou gestos, sabia que era uma pessoa querida que também lhe queria bem. Sentou-se no banco de madeira ao lado do singelo lago e viu pássaros darem rasantes sobre o espelho cristalino de água. Jogava pedaços de pão, sabe-se lá de onde apareceram, para o deleite das aves. Neste instante uma moça passou o braço pelos seus, uma janela se abriu no meio do lago e ele se viu na cama, prestes a cair em sono profundo, clamando a Alguém que lhe desse caminho à vida, de preferência dos braços de um amor recíproco. A janela foi esmaecendo, eles se olharam através da alma e soube então que assim seria, o afeto que vinha de dentro, não pereceria pelo tempo, muito menos pelos caprichos e desejos mundanos. Uma casa de espetáculos foi se erguendo quase sob seus pés, abrindo as portas e ambos caminharam, mal sabiam que eles seriam os artistas principais, pois era uma vida que se abria, o teatro de uma vida quase real, pois tinha a prerrogativa da pureza e sinceridades comedidas.”
- Desfibrilador!!!! Nós o estamos perdendo.
Por: André R. Melchiades Sexta-feira, Setembro 05, 2008
OLHOS DE NARCISO
Amparando o espelho pelo cabo, deixou-o a frente do sorriso maroto e pode contemplar a beleza mais bela, o olhar penetrante, o jeito meigo. Fechou os olhinhos e passou a suspirar, devaneando com seu ego inflado dum tantão de si.
Ao mesmo tempo, com os pés flutuando naqueles deslumbres todos, começou a se ver com outros olhos que não os seus e parecia que sua beleza ainda era mais atraente, que seu olhar ainda era mais cativante e que sua meiguice era ainda mais doce; eram todos apenas estes seus encantos.
Jogou o espelho longe. Quebrou-o em tantos pedaços quantos eram suas lágrimas e nunca mais se viu frente a si mesma, tampouco de olhos fechados.
Seccionou o tempo, o estagnara ali com o que tinha de melhor, pois de sabido tinha que somente o tempo poderia aniquilar seu maior legado.
Por: André R. Melchiades Quarta-feira, Setembro 03, 2008
CLARA
Quando Clara adentrou ao saguão todos os olhos da fidalguia eram para ela. Tornou-se costumeiro ter a beleza reverenciada por tantos e a moça viu nisto um ardil conveniente. Já não se vestia mais para ela mesma, cada peça de seu vestuário, sensualmente casual, passou a ser preocupação aos que outros causariam. Tanto isto lhe rendia os frutos desejados que não foram poucos os momentos em que lhe faziam a corte, mesmo sabendo que Clara fora prometida a outro e aqueles menos desavisados nem eram desencorajados por ela. A moça passou a receber em surdina pequenos mimos os quais deixava despreocupadamente dispostos nos aposentos como se fosse um troféu. Permitiu-se aos desfrutes que sua beleza e inteligência lhe trouxeram, bem como a toda conveniência de mulher inocentemente dada, pouco se importando ou até sem saber com o que a sociedade comentava. Talvez Clara nunca imaginasse que seu também prometido fosse desconfiar de sua honestidade, pois vinham de suas expressões, sob quaisquer questionamentos, respostas secas e contundentes. Com um vão desassossego o viril calava-se mesmo olhando-a com uma ternura em forma de dúvida, cegueira de quem não queria ver. Os dias de esplendor da jovem atingiram o ápice e nada a satisfazia mais, tampouco o mancebo que lhe cortejava fazendo seus caprichos dias a fio, na verdade o jovem já lhe parecia enfadonho. Tudo ficou demasiadamente insuficiente para seus caprichos e também para suas expectativas. Desejava nem sabia o quê, levava seus passos de acordo com suas banalidades e necessidades, pouco se importando com quem lhe rodeava. Não mais havia um dia em que a plenitude das suas vaidades bastava, ainda assim suas atitudes maliciosas, as intencionais e as não, traziam um lampejo vital para seus momentos. De tão evasiva não percebera que os beijos que ofertara ao seu parceiro de noites ao luar já não traziam mais carinho, eram secos como ela tornou-se. Permaneceu ainda mais distante que não se deu por conta quando o jovem se foi, sentiu-se aliviada de fato assim que notara sua ausência. Clara agora estava noutros lençóis, talvez os mesmos de noites sem luar, mas eram outros momentos e intensificava sua feminilidade com o toque de crueldade.
Recordou certa vez seu antigo pretendente, sabia que o amor que ele lhe tinha permanecia forte, aquilo a deixava toda mimosa, mesmo sabendo que o jovem sofrera e ainda sofria; pensava a moça que ninguém é dono das suas emoções, cada um que arcasse com as suas. Nisto ela sorriu e abraçou o estranho que alojara as pernas entre as suas... num breve instante, cerrou os lábios e imaginou:”Será que o mancebo de outrora também agiu comigo assim como eu agi com ele?”.... mas logo este pensamento desagradável foi-se de vez , sob um aperto carinhoso e amoroso do seu lindo afeto, voltou a sorrir como sempre o fizera...
Viu, vil!?!
Por: André R. Melchiades Sábado, Agosto 30, 2008
NA 71
Sob o crepúsculo, lá se vai.
Vai-se tarde, talvez dia, inda assim resignada, vai. De certo já havia ido; ‘ que os momentos se foram, que suas emoções se foram, agora então vai. Que é tardio o beijo do adeus, o acenar de partida, a lágrima na janela. Deixe-me as marcas, que o tempo as alojará num canto mais manso dentro de mim, leve consigo seu sorriso mais belo, qualquer um o é, pois aqui aliciaria minhas lembranças menos pueris.
Vai, amor, que eu posso chamá-la assim, só eu, vai.
Por: André R. Melchiades Quinta-feira, Agosto 28, 2008
DESLIZE INSONE
Não foram poucas as noites, nem os lugares em que vigiara seu sono.
Sentia prazer, nem aprendi com o tempo, isto me veio na nossa primeira manhã. Dei sentido às minhas tantas noites insones: namorei você lhe espreitando, tocava seus beicinhos úmidos de menina se alvoroçando nos sonhos de medo, tirava seus cabelos sobre os olhinhos semicerrados para vê-la ainda mais bela, lhe cobria o corpo de beijos e lençóis.
Agora que o tempo tornou distantes as lembranças, as noites voam e não a espio, não a venero, nem lhe cuido...não mais lhe tenho.
Por: André R. Melchiades Sexta-feira, Agosto 22, 2008
SEMPRE SETEMBRO
Batem à porta, não ouço, baterão bem mais e ainda assim não ouvirei, tampouco verei, não me permitirei, inconsciente consciência. Hum, e se chorar? Talvez chore também, certeza, chorarei junto, entretanto não serei cruel, como poderia se tanto choro sozinho eu tive. Adiante só olharei meu reflexo nas lágrimas que cairão no chão, meio alívio, meio dor, de toda forma estarão à frente e nelas pisarei, atingindo uma por uma, assim não me distrairei espiando para trás.
Por: André R. Melchiades Quarta-feira, Agosto 20, 2008
ESCULTURA
Veio a mim como uma pedra bruta, um lasco de mármore perdido em meio a tantas outras peças menos vistosas. A vi ali, especialmente encantadora, mesmo tendo recoberta de musgos suas várias carapaças, doce rude camuflagem.
Aos poucos foi se lapidando, lentamente a fui esculpindo; não; fui deixando-a seguir seus instintos, tomando sua forma mais bela, quaisquer que fossem. Inspirava-me abrir os olhos toda manhã e vê-la, mesmo que distante, pois o amor se reverencia quando dois têm uma única alma e assim nos permitíamos sermos únicos. Cativado como estava apreciei todas suas formas, deliciando-me com a doce insanidade da fase quase Renascentista que seu coração vertia, caprichos ilusórios da Vênus latente.Quando se formou por completo foi o deslumbre de uma vida inteira, traços sutis em lábios de sorrisos de todos os encantos, expressões tênues e fortes para ricochetear os agouros. Assim ficou ali exposta para a visitação do mundo que a circundava e foi criando vida, mais que vida, mais desejos, já não era mais uma pedra bruta, era uma obra de arte. Então, desvencilhou-se do pedestal que lhe dera guarida e indo, se foi. Talvez pensasse não ser mais uma escultura, mas nas suas vagas lembranças sabia que seu coração ainda, infelizmente, era de pedra.
Por: André R. Melchiades Segunda-feira, Agosto 18, 2008
QUANDO UM SONHO NÃO MORRE
Quando estive nos sonhos, sabia que o era. Mansos, vorazes, fortes, doces, medrosos, destemidos; dualidade de sentimentos, sonhos assim mesmo que são. Os sonhos em terra podem ser fugazes, mas são eternos, mesmo que apenas dentro da alma. Naquele deleite cada música era trilha sonora de um romance shaksperiano, houvesse uma paisagem sob nossos olhos tornava-se o Cezanne de minhas lembranças e, ainda que somente eu sonhasse, trazia dos céus toda existência divina nos afagos e promessas mutuamente perpétuas, mais ainda, vinham dos sorrisos de travessura, manhas e alegria a inspiração para minha vida inteira.
Por: André R. Melchiades Segunda-feira, Agosto 11, 2008
CACHOEIRA
Havia uma cachoeira de águas abundantes que lambiam as encostas dos morros. Era uma manhã fria com o sol timidamente despertando em meio à vegetação densa. Alguns raios de luz rompiam o casulo gélido do orvalho, umedecendo o ar ainda mais à beira do rio. Pedras pontiagudas despontavam no meio da água como se buscassem respirar o dia novo. Uma rajada de vento, quase brisa, lascivamente passa por nossos abraços e ela, ah, ela busca abrigo com olhinhos pecaminosos e também inocentes; coisa delas. Saltitamos um córrego que fluía à margem da cascata e nos colocamos na mais alta pedra esverdeada pelo musgo que lhe recobria a parte mais à sombra. Mais dispersos pela beleza do lugar nos sentamos de frente para a parede d'água, pouco importando se estava úmido, tendo as árvores e os pássaros como platéia. Com as mãos entrelaçadas fechamos os olhos e só ouvíamos o som da água se arrebentando quando caía do alto do rochedo; mais ainda, sentíamos o deslizar do rio sobre nossos pés. Assim, nossas vidas se passaram, com as vicissitudes dos dias tal como a correnteza que levava as folhas caídas das árvores, cada instante se fazia novo e renascia e renasce; pois que seja eterno quando é difícil ser terno; isto é amor.
Por: André R. Melchiades Quarta-feira, Julho 30, 2008
AZUL DO JERIMUM
Do meu coração nasce toda manhã uma lembrança, por vezes sorridente, outras melancólicas, da certeza incerta do caminho erroneamente correto e das mãos entrelaçadas laçadas por mim.
Trago no suspiro contido, no peito, uma dor contida; disfarço, refaço e rechaço quaisquer desalentos.
E se agora desatino os pensamentos no malquerer que me foi quisto, o minuto de agora já é depois e passa, só não passa a fantasia de toda, pouca, vida da certeza incerta, sim, fui pleno, estive no meu devaneio e estou nele em toda manhã azul.
Por: André R. Melchiades Sexta-feira, Julho 18, 2008
DIAMANTE
Porque seus olhos espiam o mundo que versa apenas sobre si, e assim fere, na docilíssima razão de proteger o âmago mais perto.
Agora, pois, que meu ópio é a angústia de seus caprichos de quase maldade e das palavras que atiram farpas, parti.
Por: André R. Melchiades Domingo, Junho 01, 2008
DEPOIS DA LÁGRIMA
Se eu fosse uma reta criada com meu próprio punho, por mais que me esforçasse, por mais preciso que conseguisse ser, nunca conseguiria a plenitude de uma reta exata. Eu teria imperfeições, meus traços seriam distorcidos em alguns pontos e talvez fossem curvilíneos em outros trechos. Mesmo lutando pra ser uma reta teria orgulho das curvas que faria e muitas vezes me enrubesceria pelos desvios mais acentuados. Contudo eu sei que por mais torta que fosse minha reta ela teria um destino, um doce objetivo e jamais atropelaria alguém para a ele chegar.
Por: André R. Melchiades Domingo, Maio 25, 2008
ANTÍTESE
Queria apagar todos os poemas de amor, pois não os sinto mais. Não sinto os pés levitarem, parece que tamanha incongruência virou desamor. Tantos amores e tantas dores, quiçá o não amar traga menos desalentos. Não suponho tornar-me amargo, mas quero tornar a olhar o horizonte, e, assim aceleradamente seguir seguro dos meus medos, que sou parte deles, mas não seu refém. Sou ainda parte de tudo isto, parte igual de cada um de vocês, apenas com uma singular diferença: se lhe magôo, me magôo mais.
Por: André R. Melchiades Domingo, Maio 18, 2008
À PERSÉFONE
por Zeus
Que lhe darei, dos céus advindo, uma beleza sem igual. Encantos todos serão suas armas. Terá olhos miúdos e olhar instigante. Longas madeixas serão as telas de sua vaidade. Sorriso em pecado nos lábios grossos nascerá a cada suspiro seu. Haverá, sei que sim, um acolhedor e belíssimo colo de dar vontade de ninar, inclusive. Verterá medos em doces alegrias. Como se fossem seus, terá a todos de seu caminho. Ainda lhe virá a sapiência de quem finge não saber e terá a gana do não ganancioso.
Porém, que lhe caiba, usar do encanto para acalentar quem careça, abrir os olhos miúdos por quem lhe dê (daria, dará) os atalhos da vida, ceder o colo num carinho sem dia ou razões certas e que você aprenda também, até mesmo aprenda a amar.
Por: André R. Melchiades Sexta-feira, Maio 16, 2008
CONTO PARA MINHA MORTE
No dia em que o cometa se foi levou minha alma embora. Foi o fim do mundo. Não houve mais dias de céus azuis, ficaram escondidos por trás das caudalosas nuvens postas pelo cruel corpo celeste. Passaram dias fingindo-se dum colorido quase lindo, mas eram tão falsos quanto meus desejos de acreditar neles. Mas houve um dia de tempestade avassaladora. O cometa regressou e por mais que eu não reconhecesse meus sorrisos eles voltaram na expressão mais pura de afeto. Os dias então começaram a retomar cores, alento e coisas comuns aos sonhos dos mais infantis aos menos pueris. Porém, como é próprio dos cometas, eles vêm, eles vão e assim todo dia eu morro um pouco vendo o cometa indo e nunca me levando...
Por: André R. Melchiades Domingo, Maio 11, 2008
ADEUS QUIMERA
Este é(?) o último conto de um cansado sonhador.
Não tenho mais tempo para sonhar, talvez seja até porque a todos eles, sonhos intensos, já reverenciei e não posso ousar ambicioná-los pela eternidade, nem que pareça curta a minha.
Minhas longas falas de anseios melosos talvez pecaram pelo excesso. Palavra curta foi-se de mim há tempos, parece que nunca a tive, nem me lembro se tive, só me encontro em longas e desarticuladas serenatas ao pé do ouvido.
A complexidade de ser nascido sob câncer e atormentado por escorpião ainda tornou-me mais turvo aos olhos de outrem e causou pena aos sonhos escassos agora.
Então ao acaso, que é o único Deus que conheço, deixo entregue os sonhos perdidos, uns quase esquecidos e vou semear sorrisos gratuitos nos lábios de quem em meu caminho passar, sem sonho, sem delírios, sem deleites, sem você, amor.
Por: André R. Melchiades Segunda-feira, Maio 05, 2008
MAIS QUE AMOR
Eu vou cuidar do seu coração partido.
Farei seguras suas noites de medo e desesperança.
Redirecionarei cada passo incerto que sua vida queira dar.
Não deixarei jamais o sorriso abandonar seu rosto, pecado mortal se não o fizesse.
Guiarei seus olhos quando estiver no sereno e a serração lhe turvar o destino.
Ainda lhe farei forte para que seus entes possam tê-la quando for do acaso.
E assim, querida, quando estiver pronta para amar irei embora, levando meu coração comigo.
Por: André R. Melchiades Sexta-feira, Maio 02, 2008
ESQUIFE
Já não aspiro sentimentos que acolham meus medos. Também nem querem que eu tenha medos, mas eu tenho sim, um monte deles, contudo não os deixo me dominar, só não os nego e os controlo a todos, a todo instante.
Aspiro sim me encontrar nos medos de outrem. Trazer acalento àquela lágrima perdida de fim de noite, sem causa, mas que causa um imenso efeito. Que um café quente naquela manhã fria seja amor e não se paga amor com algo além de um inocente sorriso.
Se não for demais, aspiro ainda um abraço demorado, daqueles em que as mãos vão se apertando, juntando, acariciando e não querendo mais soltar. Que uma pressa não seja maior que a vontade de dar um beijo, dois até e não ir mais embora, mesmo já estando longe, apenas delirando de saudades.
Eu não busco nada, não espero nada; apenas sonho, como sempre foram meus contos desde a infância, e assim, com alma de pecados perdoáveis, gasto meu ultimo resquício de fé suspirando meus doces delírios em oração.
Por: André R. Melchiades Quarta-feira, Abril 30, 2008
O INFERNO
Conheci também o inferno. E se não havia peitos desnudos é porque no inferno os desejos são mais sutis e nem por isto menos cruéis. Não via trevas, tampouco odor de enxofre, espocavam sim balões cintilantes dum prata mais vivo que a própria vida e o cheiro doce que dava feições ao ar era entorpecente vindo da mais primaz papoula. Acreditem, caros, o inferno é aqui, nos braços de quem lhe afaga, na mão que lhe toca, nos lábios que roçam o seu, no sorriso despretensioso. O inferno está nas coisas que lhe deixam perder o controle, que lhe deixam à mercê de suas fraquezas. Ah, o inferno seduz, conduz, mas espreita nosso choro contido no refugo da noite mal dormida e se regozija disto, mesmo que por vezes nem se dê por conta. Agora eu que o vigio, de longe que não sou nenhum Serafim, de fato por medo, e digo para que nunca fechemos os olhos ao dormir, não convém à alma vaguear, mantenhamos o inferno dentro de nós que já basta.
Por: André R. Melchiades Terça-feira, Abril 29, 2008
EROS E PSIQUÊ
Nada mais era que uma obra de arte para os meus olhos.
Via expressões fortes, marcantes, delineadas por traços arqueados, trazendo uma robustez delicada em volumes perfeitamente moldados. Pus-me sentado aos pés dela que não me via, que há muito não me vira, se é que um dia me vira e assim ali permaneci, pesando séculos em cada minuto de adoração, apenas eu e a vida, uma platônica abstração do mundo. As mãos nervosas ousaram sentir a frieza do mármore celeste esculpido, se não fosse eu de pedra, seria ela, mas rocha escavada não mina água, eu choro.
O coração não vê, sente, e minha escultura por si não ganha vida, nem sente a minha acelerando meus medos.
Fechei os olhos puxando a portinha que fecha o coração, sem toque, sem beijo, sem abraço, sem desejo, sem eu e você.
Por: André R. Melchiades Segunda-feira, Abril 28, 2008
E TINHA O TINHO (Parte II)
Já perambulava jaziam dias e não havia sóis no seu caminho, tampouco no percurso percorrido que ele insistia em espreitar. A gatinha não mais luzia por ele, doía e sabia, mas insistia. A noite vem, traz um certo ar bucólico que o põe sentado sobre as patinhas traseiras numa caixa de madeira no final daquele beco. Clamou aos céus num miado dolorido e cortante, tantas eram as estrelas formando um manto, mas sabia que nenhuma brilhava por ele. E se gritou, tampouco ouviram, pois seu canto foi na esquina do nada com lugar algum. Em total desamparo apoiou-se em crenças que sequer sabia tê-las e pensou: ”Deus é o meu acaso”. Então Tinho, cambaleando, se ergue, dá uns dois ou três saltos sobre as muradas e novamente entoa uma cantiga torpe, porém desta vez ele anda e não olha pra trás. (será?)
Por: André R. Melchiades Quinta-feira, Abril 24, 2008
TINHA, UMA GATINHA
Havia uma gata chamada Tinha e um gato chamado Tinho. Eram muito amigos, de gostarem das mesmas brincadeiras, de serem cúmplices nas provocações, enfim sempre estavam rindo. Depois de anos naquela proximidade toda, Tinho percebeu que as coisas dentro dele caminhavam para um sentimento ainda mais forte e assim se sucedeu...
-Tinho!! Desce e vamos brincar – gritava a gatinha.
Abrindo uma bocarra enorme de sono, ele salta todo trôpego para agradá-la.
E pularam, deram cambalhotas, puxaram um o rabo do outro até que ela se cansou e disse:
-Ai chega! Num quero mais brincar. Tchau!
Tinho, que já se acostumara com este jeito chocho quando ela não queria agradar, limpou a poeira, ergueu a cabeça e saltou muros e telhados, todo feliz, porque simplesmente havia pegado na patinha dela.
No dia seguinte ela aparece no beiral da janela:
-Tinho, Tinhô!!!!! Acorda molenga. O passarinho que não deve nada pra ninguém já ta cantando desde às cinco da manhã. Levanta, saco!
O gato exausto, pois passara a noite toda brincando com seus donos, fazendo agrados e graça, caminha até a janela:
-Que foi Tinha? Parece triste!
-Ah, hoje não to bem. Me faz rir?
-Humm, ta me chamando de palhaço? Por acaso eu sou o Bozo? Mistura de Gato com Bozo dá um nome feio....
-Cala a boca, indecente! Só me faz rir, senão shhhhh, quietinho! – diz ela rindo, meio sério, meio triste.
-Sabe, fofa, eu pensei que lá onde você mora, pensei que lá Tinha gente legal......
-Que piadinha infame! E fofa é sua mãe!
-Infâmia é o que eu ganho para agradar meus donos...e você, que nem me dá uma lambidinha meiga.
-Ah é? Vai lamber asfalto.
-Vou sim, sem problemas. Pelo menos ele deve mais doce que você.
-Capaz!!! Só sei que nele você pode pisar e em mim nunca, seu ridículo!
-Não piso em você porque não tenho uma bota que seja grande o suficiente pra te cobrir toda!!!! Balofinha!
-E que bota conseguiria levantar com estas varetas que você chama de patas?? Esquelético!
-Com estas aqui olha!! – e imaginem........
O festival de insultos, misturados com tapinhas, gargalhadas, barrigas pro ar e coração mais leve dura uma eternidade.
Tinha enfim, pega e diz:
-É, já rimos bastante. Você é legal. Gosto de você, mas agora ta tarde e preciso ir.
-Espere. Por que você sempre vai? Por que não fica comigo de vez ao invés de ir e vir perigosamente por estes becos?
Pega de surpresa pela conversa fora da hora, ela dissimula:
-Ta ficando escuro e me deu um soninho....
-Vem cá, a gente não brinca sempre?Não dividimos nossa ração? Não partilhamos nossos sonhos? Não vamos sempre viajar até aos becos distantes?
-Sim, sim, sim! Mas nem tudo são flores....
-Eu sei disto, mas não te entendo, aceito, mas não entendo.
-Como assim? – nasceu a curiosidade feminina.
-Não dá para compreender que você prefira procurar tanto e tão aleatoriamente o que você nem sabe o que é direito e prefere me deixar aqui, sozinho. Olhe nos meus olhos, vai.
-Eu olho e vejo o que eu to sentindo, apenas o que eu sinto, só isto.
-É, talvez eu não saiba me expressar tão bem quanto você, mas.... mas invariavelmente a gente passa a vida toda buscando a felicidade em coisas distantes, muitas vezes fora da gente e não nos damos por conta que por toda nossa existência a alegria de viver esteve ali dentro de nós e também do nosso lado e por pouco não a pisoteamos.
-Não é tão simples, Tinho, certas coisas a gente não escolhe.
-Talvez, mas o que é a vida senão escolhas que fazemos todo dia? Podemos escolher certo e errado, mas podemos reconhecer eventuais erros e refazer estas escolhas.
-Podemos escolher certo a coisa errada. A vida também é uma busca, uma corrida atrás do melhor, de um sonho...
-Olha, você sabe aquela coisa que dizem da gente, dos gatos? Que nós temos sete vidas?
-Claro que sei, Tinho.
-Pois bem, meu amor, é mentira, a vida é uma só. Num procura muito não.
Tinho põe o rabo entre as patas, salta, caminha sobre a cerca e desaparece para sempre tendo a lua como sua única companhia.
Por: André R. Melchiades Terça-feira, Abril 22, 2008
IMAGENS NOVAMENTE
Ouvi um estrondo enorme. Um trovão. Quase nem chovia. E nem sei se era dia.
Eu só ouvia agora o tilintar dos pingos sob o rufo da varanda. Talvez nem fosse dia porque clareou apenas com o raio que me fez ver você espalhada pela cama, docemente quase nua, abraçando o travesseiro com a melhor expressão que a noite pode lhe doar e você suspirava de olhinhos fechados.
Outro raio, ainda mais intenso, expõe o ninar de menina, não era mais a ofegante inspiração da noite anterior, tinha outra, de ausente luxúria e imensa ternura. Exalava um sutil perfume sob os longos cabelos, próximo à nuca.
Um tímido trovão agora lhe faz calmamente se mexer, deixando rolar até ao chão o travesseiro e o trocando pelo meu abraço. Sem malícia alguma você umedecesse seus lábios delicadamente com a pontinha da língua, parecia um quase despertar. Percebendo seus poucos pelos enrijecidos, puxo o lençol sobre seus seios nus, aquecendo seu corpinho alvo de mocinha carente. Ajeita-se melhor em meu peito, passando a perna sobre a minha.
Sob a luz de outro raio, não dizendo uma só palavra e ainda de olhinhos cerrados me beija levemente. Contorno as mãos por suas costas, tateando suas curvas, delineando cada espaço, sentindo seu calor. Meu peito de encontro ao seu sentia os corações batendo compassadamente, calmamente; eu me sentia seu porto seguro.
Um bravo trovão estremece o quarto. Você me aperta ainda mais forte, um quase medo. Arregalo bem os olhos de sono e sinto seu perfume se afastando de mim.
O mais claro dos raios ilumina a cama vazia e ainda aquecida. Por entre as cortinas, que balançam úmidas pelo vento e a chuva, a veneziana se abre e noto que um lenço azul despede-se de mim, caindo no mundo.
Por: André R. Melchiades Terça-feira, Abril 22, 2008
IMAGENS
Eu que já tive dragões e anjos em cada delírio mal sonhado, agora tenho a mim apenas, que se não sou anjo, também nem sou dragão ou talvez seja os dois ao mesmo tempo, dualismos de minha vida e sonhos. E ser apenas isto é um tantão que nem cabe nas palavras confusas que me empenho em delinear. Meu mundo é enorme neste silêncio em forma de prosa, cheio de ilusões e desatinos, e, se crio amores é porque os tenho dentro de mim e não os tenho fora, ainda; mesmo porque ela somente aparecerá naquele lindo dia de chuva fina e frio cortante, eu sei!
Por: André R. Melchiades Terça-feira, Abril 22, 2008
ANTES DO DOMINGO CHEGAR
O bar rústico com seu jazz entorpecente estava estranhamente vazio. De posse dos meus pensamentos mais distantes tomo talvez meu último solitário drinque, quando uma luz me traz à tona. Lentamente a luz se faz mais presente sob a forma de uma moça de olhar meigo, expressões doces e um sorriso de todos os deuses. Os cabelos escorridos sobre o busto discretamente à mostra se movem a cada passo. Caminha lentamente em seu scarpin dentro de um negro vestido colado ao corpo e com um lenço de um translúcido azulado, meio que destoando, meio que exótico, sobre os ombros. Ela suavemente passa ao meu lado, sinto seu perfume, um toque meio silvestre, meio madeira, meio doce, não sei ao certo. Recoloco meus desejos insanos de lado, me refaço, acho que já é hora de ir embora. Quando me viro para sair quase perco o fôlego. Estava ali, ela, a minha frente. Olhos nos olhos. Pensamento perdido. Mãos nervosas. Um sorriso sem jeito. Segundos, minutos talvez se passam e somente uma frase mais inocente que pretensiosa escapa:
-Como eu gostaria de saber a coisa certa a lhe dizer agora...
A resposta soa gentilmente:
-Ah, por favor, então não saiba, pois eu me encabularia em responder....
Mudos trocamos sorrisos cúmplices e saímos dali. Caminhamos por quadras mal trocando meia dezena de palavras. Aos poucos as mãos se entrelaçam. As horas viajam, os lábios, enfim, expressam suas verdades de fala e de paladares. Agora somos extensão um do outro. Sei de suas vontades, manias e birras, ela me diz o que sou, como sou e porque o sou. Sinto finalmente a razão da minha existência, sinto-me ouvido, sei que sou ouvinte também. Poderia dar por concluída a, até então, eterna busca da minha alma gêmea.
O sol já quase que nasce aquecendo a cama do meu quarto e ainda a vejo nua, alva a se encaixar nos meus braços. Meio adormecida, sussurra oito números no meu ouvido e com associação ilógica da minha imaginação guardo-os todos. Um toque suave dos lábios em meu rosto me põe de volta ao repouso, sereno e feliz.
Ouço uma cantiga ecoando distante, como se fossem anjos. Uma brisa, quase vento, me traz seu perfume às narinas. Desperto e ela não estava. Demoro a tomar consciência de tudo, apenas sinto sua ausência.. Procuro por ela, por vestígios, um bilhete, um recado. Sobre os lençóis brancos sequer um fio de seu cabelo, nem uma mancha de seu batom, nem uma marca de suas mordidas na minha pele. Nada. Penso que delirei, que sonhara, que fora o álcool talvez. Quase me convencendo disto vejo perdido atrás da banqueta o lenço. Afoito, afasto tudo e o ergo por entre os dedos quase o deixando escorrer de tão fino que é o tecido. As lembranças me vêm mais fortes através daquela mínima peça que esquecera ali e assim também vou revivendo os tais números em meu ouvido. Um a um vão clareando em minha mente e ao final sabia que ela me deixara seu telefone. Relutei em parecer ansioso, temia parecer pegajoso, intruso, mas não resisti, não sou de esconder o que sinto. Parado ao lado da janela, segurando o lenço, liguei. O aparelho toca várias vezes e finalmente atende. Atendem. Uma voz de certa idade acha estranha minha pergunta. Engasga, engole a seco, gagueja e meio que trêmula me responde:
-Sinto muito, mas ela faleceu tem uma semana.
O lenço, como por encanto, escapa das minhas mãos voando e desaparecendo através da janela.
Por: André R. Melchiades Domingo, Abril 13, 2008
DO ALTO DO PÉ DE GOIABA
Eu que já esperneava por ainda fazer com que acreditassem nos homens, hoje me ponho a duvidar até da existência de Deus.
De fato nunca fui vidraça, tampouco pedra, mas versei bem pelas duas searas e se nunca fui tanto, conheci intimamente cada efeito de ser um deles. Preciso ficar junto aos meus sonhos porque senão me tornarei comum, me contaminarei deixando brotar o que tem de pior em mim. Aqui trancado nos pensamentos e delírios posso ser o bem desejado que quiser. Ao mundo, em sua maior parte, que continue caminhando rumo ao definhamento com seus egoísmos, intolerâncias, ingratidões, grosserias e desamores. No meu cantinho (como se fora o da minha infância, onde subir no pé de goiaba do vizinho era o cúmulo da maldade mundana) temos que ser melhores: todos dividem até sorrisos, todos dizem obrigado mesmo por banalidades, todos contam até dez para tolerarem mais, todos acariciam um rosto amuado e todos amam mesmo sem os conhecer.
Tranquei e joguei a chave fora.
ps: não era goiabeira, era pé de goiaba mesmo!
Por: André R. Melchiades Quarta-feira, Abril 09, 2008
POR LOU SALOMÉ
Talvez houvesse uma minha musa
Que me vestia de inspiração os todos tantos sonhos.
Se não houvesse a inventaria para perder o sossego
Ainda como se fosse imperativo a teria todo dia.
E se agora a reinvento me dói menos, se dói.
Afinal, quanto mais platônicos melhores os delírios.
ps: platônico sim, sem musa não...já volto, vou procurar uma.
Por: André R. Melchiades Terça-feira, Abril 08, 2008
LIVRO ANTIGO
Resolvi remexer meus guardados e retirar do amontoado de lembranças aquele antigo livro. Bateu-me a saudade de ver suas densas páginas e reconstruir em minha mente cada frase que dele absorvera. O livro ainda estava ali, não muito à mão, mas acessível. Uma brochura robusta, de capa linda e duríssima, folhas soltas, com frases fortes e despretensiosas. Quando o li d’outra vez tive a sensação de mergulhar no inexplorável, algo sutil, recheado de encantamentos e orações a serem terminadas. O prazer da leitura se dava maior no silêncio, no escuro, no espiar e ali eu me perdia viajando nas sucessivas abordagens distintas de cada mesma cena, porém sempre via um mesmo propósito, uma mesma expressão. Se me encantei parecia pouco, havia respostas até para o que jamais houvera pensado e eu aprendia, humildemente me curvava àquelas letras dizendo ser inferior para tatear sequer as páginas. Um dia não mais li. Nem havia terminado, mas era dado o tempo que me coube para interpretar todos aqueles pensamentos escritos. Achei coisas demais, de menos; concebi verdades absolutas que não duraram dias e outras tantas esquisitices que julguei serem corretas. Algumas eram.
Agora com o livro à mão novamente, resolvi retomar os pensares que dali partiam e me pus a sugar cada dito. As palavras eram as mesmas, cada frase ainda mais familiar, expressões bem comuns, mas tudo me soava estranho. Talvez fosse a posição em que agora me ponho para a leitura ou ainda porque já não sou mais o dono do livro; é uma publicação que se tornou parte do mundo. Por mais que eu lesse as mesmas frases não me veio a sutileza em ternura que vira antes, se é que havia e somente eu as via. Tornou-se uma leitura fácil, fugaz, quase corriqueira, porém um tanto rude, seca, de frases a doer e de me por aos prantos enquanto caminho com menção de fechar-lhe a capa e colocá-lo do armário. Novamente parei a leitura e novamente doeu. Talvez tenha parado antes do fim a mim destinado, talvez retome num dia como já o fizera e talvez doa de novo, não sei. Parado observei o livro à distância e não soube decifrá-lo nem assim. Melhor retomar meus Monteiro Lobato e Marcos Rey, talvez eu só me veja na complexidade de ser simples e somente (me) entender (n)estas páginas.
Por: André R. Melchiades Domingo, Abril 06, 2008
AO (A) MAR
Se renasço todo dia é porque os tantos devaneios viram poeira e não deleites, tenho que pô-los no prumo ao final dos meus lamentos.
E se me pego em desalento é porque a decepção é morna ainda, mas esfria a cada suspiro.
Quando o dia clareia os olhos vermelhos há mais caminhos vindouros, não é fé, é viver com a vida, é navegar sob o balanço das ondas e deixar-se ir.
Hoje eu vi o mar.
Por: André R. Melchiades Sexta-feira, Abril 04, 2008
DESTINO VADIO
Espia. O destino vagueia. Procura insanas personagens pro seu auto de fé e desesperança, contra-senso; se não o fosse seria vida*? Não, que me amo e só amarei quem me amar. Não, que só amar não basta. Que tragam e lhes dou ternura, gentileza e respeito; amor só não basta. Que vivamos intensamente, eu não tenho medo, pena causa o seu, os seus, a todos os seus. Sorrir apenas não, também fazer sorrir. O destino vadio nem viu, encontrei olhos que sorriam e me fui antes dele passar...
Por: André R. Melchiades Quarta-feira, Abril 02, 2008
COINCIDÊNCIA
Eu não tenho ninguém.
Tenho sonhos possíveis de amores um pouco impossíveis.
É irônico porque não dilacera o coração, só arranha um tiquinho a alma.
Eu não tenho ninguém,
Mas ela me tem, no quanto e nas vezes desejadas.
E gosto e amo e sorrio; e cicatriza a alma que arranha,
Mesmo eu não tendo ninguém.
Deliro porque o dia é novo a cada manhã de sol e também de chuva.
Haverá ela que me terá um dia,
Talvez não, talvez nunca, talvez outra, talvez não.
Hoje, eu não tenho ninguém, nem nada,
Nem luxúria, nem afeto, nem ternura, nem nada.
Pertenço-me aos meus devaneios apenas.
Eu não tenho ninguém, você também.
Por: André R. Melchiades Terça-feira, Março 25, 2008
ALMOST “BARTLEBY*”
As cinzas de sua labuta espalharam seu suor, a angústia do trabalho sofrível. Moedas tantas largadas ao chão, desprezível paga por devassável vida a tomar-lhe de ordens, desaprovações, dúvidas. Quem o desejava bem não compreendia a imensidão de seus pensamentos desconexos, pouco inteligíveis; nem com toda crença ferrenha alcançava os meandros daquela mente insânia; fé demais até cega. Os olhos perderam o foco, estáticos, inertes. A vida escapava por aquele semblante inexpressivo, de um não sorriso de todo instante. Era quase pena, quase ira; na maior parte era indiferença mesmo, somos cruéis.
Olhei-me através dele. Via um espectro de meus momentos mais íntimos; somente meus. Não, não quisera me ver naquela cena, naquele mundo espremido entre poucas paredes, tampouco naquela alma distante de uma vida ainda mais distante. Respirei o mais profundamente que pude, guardando o soluço de quase lacrimar e escondendo para sempre o Bartleby que carrego comigo.
*“Bartleby, o Escriturário”, Herman Melville (Bartleby - Sesc Paulista)
Por: André R. Melchiades Domingo, Março 23, 2008
A ETERNIDADE DE UM CÃO*
Uma vez certo cão se ajeitava em sua casinha contemplando as estrelas. Observou cada uma delas como se fossem olhinhos a lhe fazer companhia, a lhe cuidar á distância. Suspirou uma tristeza de segundos que se foi com uma coçadinha sob ás ancas. Voltou os olhos para cima, porém nem houve tempo para ficar contemplativo e foi vigiar seu território quando uma coruja ousada quis atiçá-lo. Destemido, mas cansado pela avançada idade, deu dois ou três latidos roucos e mais pelo tamanho da sombra que seu corpo surrado projetou do que mesmo pela sua presença, espantou a ave noturna. Cambaleou em direção aos paninhos da sua casa e cansado esticou a língua ao pote d’água. Sentia-se estranhamente inquieto, sabia apenas que a alma estava feliz, sempre, como sempre, feliz. Olhou em direção ao portão e notou uma silhueta magra e lhe saudar. Como todas as imagens, era outra em preto e branco, quase altiva, mas com um sorriso carinhoso de quase uma vaga lembrança. Por instinto, manteve-se estático, de rabo ereto, esperando um movimento a seguir do seu, até então, opositor. O que lhe veio foi inesperado: ”Alf, Alf”. Sem saber o porquê seu rabo perdeu o controle, alucinou-se. As palavras, as quais adoravam que ele atendesse quando as pronunciassem, lhe envolveram e ele sorriu, um sorriso canino. Sem perceber, fora atropelado pelo pequenino cão com cara de chocolate, tanto mais jovem e mais arteiro que ele e sentiu uma dorzinha no coração de ver aquele conhecido estranho tombar o outro pra lá e pra cá. Deu uma vontade de latir, pedir carinho, mas tava cansado demais pra isto. Deu uma última olhadinha e viu que o terceiro cãozinho, o mais mal humorado deles, também já recebia afagos, porém o que lhe doía era não ter ganhado sequer uma passadinha de mão na cabeça e aquele achocolatado todo oferecido, ganhava até festinha na barriga. Caminhou para dentro da casa e só ouvia as brincadeiras dos cachorrinhos lá fora, ficou com raiva de ser cão e ouvir tão bem. Ajeitou-se perto da manta que estava no chão e pensou na vida, em toda curta lembrança que tinha, pensou no mais importante: “onde estaria minha ração?”. Inesperadamente, como sempre acontecia, a ração aparece na sua frente, a mão que lhe estendera o rango era familiar, odor familiar, gesto familiar, era sim, daquele desconhecido familiar do portão. Balançou a cauda, sentiu a mão agora lhe acariciar, viu os outros dois cachorrinhos implorando para ter tudo aquilo que somente ele tinha na eternidade de alguns instantes. Suspirou, um suspiro de amor, de uma lembrança distante, de um carinho gratuito, quase ronronou, heresia! Agora estava ali largado, de patas estendidas, se achando o cão mais amado do mundo. O cão com fuça de chocolate e o outro de focinho fechado, se entreolhavam imaginando que o velhinho estava viajando em suas reminiscências e correram para fora. Sozinho agora olhava através da fresta da porta aquelas estrelas a lhe fazer companhia, mas agora ele lembrava que uma daquelas tinha um rosto estranhamente familiar e amanha já não mais teria. Debruçou sobre as patas dianteiras, pensou que era uma dádiva ser um cão, pois cada dia era uma eternidade e cada lembrança, boa ou ruim, durava até a próxima lembrança, durava o que tinha que durar. E dormiu.
*Como os Royalties não foram pagos, os cães pediram para retirar seus nomes do texto.
Por: André R. Melchiades Segunda-feira, Março 17, 2008
PAULISTA 1842
Garoava. Vinha num vento leste que trazia um pouco de uma noite fria. Meus passos ecoavam dentro do meu peito e faziam dueto em suas batidas secas, arrítmicas como meu coração insiste em ser. Senti uma saudade de mim mesmo, dos dias de sorrisos fartos, de inesperadas sensações, de felizes perspectivas embaralhadas, de um nada com gosto de tudo.
Quase vi um vulto de melancolia ceifando minha trilha, mas não, não tenho tempo para existência confusa e retrô, tenho apenas tempo para mim e para quem me vê no que sou de bom, no que sou de ruim, basta eu que sou meu pior crítico.
Enfim chove, meus olhos ludibriam os passantes e a mim também. Carrego um sorriso e uma lágrima; somos complementos, e, de peito estufado não olho pra trás, a vida nasce agora, todo dia.
Carrego inda mais quem queira, coração vadio não tem dono, nem pena, tem instinto apenas.
Por: André R. Melchiades Quinta-feira, Março 13, 2008
DOIS MIL E DOIS*
Discretamente trêmulas, as mãos minhas, tentavam lhe dar conforto, arredia, arrefeceu-me. Então a acariciei em silêncio e à distância. Perdida nos pensamentos sobre si mesma perambulava o inconsciente e me dizia às lágrimas das fraquezas que lhe assolavam o coração, talvez da tristeza, talvez da dúvida de ser gente, não sei, não soube. Da sua acidez pouco era visível, mas mesmo mínima era intensa e ainda se mostrava, a protegia. Mas ali eram os olhos puros que estavam e se não desabou foi quase. Não houve piedade consigo, sorriu o tanto e mais que pode, ergueu a cabeça, maltratou os olhos com as mãos, respirou profundamente, relutante doou-se ao conforto do toque de um simples carinho. Embora não houvesse sorriso na alma, havia um lampejo à busca, sábia, muito. Houve um espaçamento no tempo, braços que se entrelaçaram, perfumes que se confundiram, pêlos que se roçaram, suspiros, poucos é verdade, advindos do coração inquieto e assim docemente trouxe os lábios lindos para um discreto beijo, para sempre.
Por: André R. Melchiades Terça-feira, Março 11, 2008
GIRAMUNDO
Vivo numa roda. Uma roda torta que dá saltos, sobressaltos. Alguns acidentais, outros intencionais, mas não sou eu que a conduzo, é o vento, a brisa, o tufão, tudo depende do dono da roda. O dono é cruel, sádico, adora emoções contundentes, pois para ele tudo é um espetáculo, a vida que gira na roda não é a dele. Por vezes até tenta ser humano, mas não, ser Dono é não se prostrar, comover-se, é não sentir a dor alheia. A roda é rude, não pára nem se o vento cessa, jamais, a roda sempre vai, inerte, mas vai. Tem gente que salta da roda, mas nunca se soube de quem foi, nem o que o dono da roda fez, se fez. Não gosto da roda, nem quando desliza ao sopro da brisa. Porque sei que depois da calmaria ela se enerva, se multiplica nas voltas que o mundo sofre, mas, aprendo, tiro proveito de cada doce bailado, a felicidade na roda é efêmera.
Hoje, daqui de cima da roda, nem posso dizer da alegria, efêmera, que me atordoou ontem, nem da dor, irônica, que me acometeu, também ontem. O dono da roda é cruel, sádico, mas tem uma coisa de que ele não se dá por conta: ele controla a roda, mas não quem está nela.
Por: André R. Melchiades Domingo, Março 09, 2008
QUADRO DE VIOLETA
O céu é azul quando está de bem.
O mar fica mais azul quando está também.
O azul não é só uma cor, azul é sina de amor.
O azul rebrilha na luz, a luz reflete em tom azul, a luz*.
Violeta é azul e desdenha da luz: belezas que se repulsam.
É como uma nódoa azulada no retrato antigo, um quadro que despenca e cai.
Doce, já quase é nada, ínfimas lembranças, meu azul se desbota e se vai.
Por: André R. Melchiades Quarta-feira, Março 05, 2008
(C)LOSER
Dias de noites vazias:
Tantos são os vis desejos,
Tantos murmúrios contidos,
Bocas seladas sem beijos,
Tormento na alma que vagueia insone,
Silêncio sepulcral nas esquinas me consome,
Medo sem volta,
Coração sem resposta,
Verde que murcha,
Esperança em repulsa.
Por: André R. Melchiades Segunda-feira, Março 03, 2008
CAMINHOS
Uma luz. Pouca. Quase nada. Brilha, ainda menos. Luz opaca, amarelada, turva. Ei-la que me conduz no caminho, meio caminho, maus caminhos, quais forem.
Por: André R. Melchiades Segunda-feira, Março 03, 2008
TUFÃO
Era um dia morno, quase de mormaço. Havia uma casinha no meio do nada. Cercada de menos ainda por todos os lados. Sentia-se no ar, uma paz, uma harmonia, meio monótona é verdade, mas era o ar sereno daquele quase deserto que esticava a vida docemente. O horizonte era vago, mas vagava na mente uma vã perspectiva de nele se perder ou se encontrar. Ora, isto cansava, ora era uma boa companhia.
Então trovejaram os tambores graves dos céus. Escureceu num estalo, vertiginosos ventos sopraram, alertando que a calmaria deixaria de existir dali instantes. Subitamente uma rajada mais forte estremece a casinha, a vila toda. Parecia que o horizonte se encolhera e trouxera o movimento do mundo todo para aquele marasmo. Os raios teciam cores azuladas nos céus, um espetáculo de talvez vida. Brotava uma vontade de sair correndo e se molhar nas caudalosas correntes águas que desciam os antigos córregos secos, que, já nem tinham esperança de germinar aquele também secos pomares ao lado, mas eram tantas as águas, tantas mesmo. Enfim, apareceu no turbilhão um rosto com sorriso de esperança, de meio desafio, meio receio; mas meio cheio é melhor que meio vazio. O sorriso foi se nutrindo daquelas forças todas, encontrando par em algum ponto daquele alvoroço e bailou, viajou, deleitou-se. Explodiu em densas nuvens o céu inteiro! Desabaram granizos enormes. Chuvas eram todas doídas, verticais pancadas d’água. Os ventos arrancavam as árvores no talo, todas estacas, todas as vidas.
Um sol do tamanho do mundo aparece, tímido, mas aparece. Ilumina tudo, todas as tragédias. Havia passado o tufão. Deixou seu rastro de destruição e abandono. Já não havia casinha no meio nada. Havia muitos restos de casinha, no meio de restos de nada. Olho para trás, não me lembro da calmaria, daquela monotonia da qual queria reclamar. O dia abre-se para um começo novo, mas não aponta um caminho, um destino. Olho teimosamente para trás, é inevitável, e não entendo mais nada. Abaixo a cabeça, penso. Ergo a cabeça, ando. Sem destino, sem casinha no meio do nada, sem nada, ando.
Por: André R. Melchiades Sexta-feira, Fevereiro 29, 2008
"PERDOA SE ME TENS, AMOR"*
Hoje sinto fragilidades de um anjo. Algo me comove ao saber que os anjos também choram, porém assusta, assombra vê-los assim frágeis. Não mais os vejo fortes, loquazes, seguros de si; eles padecem da forma mais cruel de castigo: amor. Pouco que restava de minha fé se vai, quando de fato imaginei que tivesse ido toda há tempos, pois não aceito que anjos chorem, que mártires chorem, que musas chorem; mas também me dói (e dor doída de mágoa acaba até com o amor) de nunca ver meu anjo chorar assim por minhas longas dores de amor; talvez o contrário, talvez não, talvez é a única certeza que levo pra vida; talvez.
*Trecho da música Perdoa, Meu Amor (C. Vieira), por Marisa Monte,
Por: André R. Melchiades Quarta-feira, Fevereiro 27, 2008
TONTICE
Antigos desejos nos assombram. Frustram os sonhos, tais como se nunca fossem nada mais que cruéis pesadelos; e pior, pesadelos recorrentes. Aterrorizam, mas passa; eternizam, mas passa; decepcionam, mas passa; eternizam, mas passa; machucam, mas passa; eternizam e passam.
Por: André R. Melchiades Segunda-feira, Fevereiro 25, 2008
Por: André R. Melchiades Domingo, Fevereiro 24, 2008
(EM) TRISTESSE
Ouvi de cantinho que a felicidade não pode estar nos outros e sim dentro de nós, conosco mesmo. Fosse verdade absoluta ainda teimaria e isto eu fiz, empenhei algumas míseras alegrias nos ombros de poucos. Pouco também esperei, desejei, mas esperei e desejei. Deixei meus braços estendidos e o que veio foi um vazio se aquietar no meu peito; ironia; o meu* não serve, nem quando a mim, nem quando aos outros.... se fosse diferente “não seria vida”.
Por: André R. Melchiades Domingo, Fevereiro 24, 2008
RUAS NEGRAS
Minha subjetividade me afasta do principal, por isto as meias palavras que digo se transformam em grandes verdades ocultas, veladas e assim vivo em paralelo. Até dado o momento deste paralelo se esvair, se for, me levar e enfim eu irei com um gostinho de ainda bem.
Por: André R. Melchiades Sábado, Fevereiro 23, 2008
A VIDA É FILME
O portão tornou-se ainda mais ocre após tanto tempo. Mesmo passado pelos anos, me deu amparo à zonzeira de ali estar e não ser mais nada, um estranho conhecido. Juntei-me à paisagem fria da recente madrugada e me compus, me senti parte do marasmo noturno. Fiquei espreitando o vento atravessar o portão, se espalhar casa adentro e sussurrar meu nome pelo corredor, cúmplice. Não houve eco, sequer murmúrios, não havia mais de mim. Juntei meus parcos pedaços, um pouco dos soluços, caminhei, deixando um dos últimos devaneios da minha vida tomando forma de adeus e parti.
Por: André R. Melchiades Quinta-feira, Fevereiro 21, 2008
VERDEJOU
Tingi meus sonhos com esmeraldas. Petrifiquei-os como estátuas de doces e amargas lembranças. Deixei-os inertes, jaz, naquele espaço que ocupou em minha vida e ali perpetua, mesmo que minha razão não aceite, mesmo que meu coração rejeite, é sua sina. Verdejei-os, pois das cores é esta a que nunca se vai.
Por: André R. Melchiades Quarta-feira, Fevereiro 20, 2008
O ADEUS DE UM ANJO
Deixei a porta aberta e furtaram meus sonhos. Deixei-os ali inertes, amontoadinhos uns nos outros para que não aparecessem, não chamassem atenção, porém o brilho deles eram tão intenso que despertou a curiosidade alheia. Buliram neles, tiraram do lugar, remexeram até eu não os ver mais. Meus sonhos, tadinhos, eram tão inocentes, puros, não faziam mal a ninguém e foram assim usurpados do meu convívio. Errei de não pô-los, exclusivos, sob meus olhos, mas eu os pus numa redoma de devaneios e os alimentava de esperanças furtivas, só minhas, nunca os impus a ninguém. Não, não eram reais, nada era; mas eram a realidade da vida minha. Traziam-me alento com algo que, talvez, nunca viria e assim perpetuaria minha existência mais docemente, mas não se pode mais viver de sonhos, não se pode mais ter oito anos, a vida não deixa. Tomara que onde estiverem posto os meus sonhos cuidem deles, os usem com amor, pois nos meus momentos de abandono e vazio eram eles os companheiros mais fiéis.
Por: André R. Melchiades Terça-feira, Fevereiro 19, 2008
A CONVERSA COM DEUS: O PEDIDO
Então o anjo me disse:
- Você pode pedir pro meu Chefe me desculpar?
Embasbacado, sem saber ao certo o que o anjo fizera, mas cúmplice, prometo que sim:
Toc, toc.
-Quem é?
-Adivinha?
-Puts, você de novo?
-Hei, Deus, olhe a língua! Que exemplo.
-Tá, tá, ta, desculpe, mas o que vai pedir desta vez?
-Poxa, assim magoa, viu?
-Ah vá, sem drama, você geralmente me procura quando algo ta estranho, desembucha.
-Que nada, ás vezes até dou uma passadinha aqui para ver como tão as coisas.
-Contaria nos dedos...mas diz aí, qual é a bucha desta feita?
-Magnânimo é o seguinte, tive uma visão. Era uma luz brilhante que explodia nos céus, raios, trovões, montanhas pulsantes, mais trovoadas, rajadas de vento, garoa fina, depois chuva forte...
-Páraaaaaa de enrolar. O que você quer?
-Bom, é simples na verdade. Vim lhe implorar alento ao coração de um dos seus, dos nossos, sei lá; de um anjo.
-Qual quem?
-O meu anjinho azul.
-Demorou...É o que me faltava. Você bebe, é??
-Que humor, pelo amor de Você!!! Por que tanta dureza neste coraçãozinho?
-Humor? Dureza? Veja se você, mero mortal, me entende: não foi você que tava triste com este anjo tempos atrás? Que fugia dele em suas lembranças até?
-Idolatrado, não nego que tava triste com o anjo, mas você disse bem: sou mero mortal e assim exagero.
-O que o fez mudar?
-A vida me mudou e vi com os olhos da alma, Senhor. Meu anjo erra, como agora diz ele que o fez, e talvez quem sabe errou comigo. Talvez quem sabe não errou comigo para não errar depois. Talvez até tivesse me poupado de erros que viriam. Não sei.
-Mas seus olhos marejam pelo anjo, como o fez agora, que lágrimas são estas?
-São lágrimas de amor, mas não são de anjo. Lágrimas de anjo são vermelhas como sangue e meu anjo é todinho azul, me dói mais a dor dele que a minha.
-Que quer de mim então, criatura?
-Cuide do meu anjo porque ele não pode ser cuidado por mim.
-Por que tamanha preocupação?
-Porque meu anjo sempre foi forte ou sempre fingiu muito bem, até quase se enganava, mas agora ta fraquinho até pra se enganar.
-A qual preço quer que eu o cuide?
-Ao preço que eu tenha que pagar.
-Qualquer preço?
-Quase. De tudo que eu tenho hoje, a melhor é a boa lembrança e bem-querença do meu anjo e ao meu anjo. Não me furtando isto, me venham as contas.
-Só lhe caberão as lembranças, suportará?
-É só o que tenho, não ambiciono nada mais, apenas sonhava, delirava, mas sei meu lugar, somente não controlo meus delírios rompantes. Faça-o e chorarei, meio alegria, meio tristeza, afinal meia alegria é melhor que nenhuma.
-Mesmo abrindo mão do seu sonho, único aliás, penso que o pedido não partiu de você...
-Senhor, é dito que para se chegar ao Pai, não se deve fazer por meras palavras soltas ao vento e sim através do coração? Meu anjo pos o coração à prova, humildemente. Ele se despiu de qualquer orgulho e quase em prece me pediu para ter contigo. Lembre-se: somos, eu e o anjo, meio avessos ás crenças e fé.
-É, para que ambos me desejassem em suas vidas, realmente o caso requer mais compaixão mesmo. Então, que seja feita a Minha vontade. Agora, que tenham uma lasquinha de paciência e fé, pois senão já viu.
-Pode deixar. O anjo que tenha a paciência que da fé cuido eu.
-Então chega, né? Vá comigo!!
-Opa, pode deixar. Fique com Você também!
Por: André R. Melchiades Sexta-feira, Fevereiro 15, 2008
SEM COMENTÁRIOS
Evitei as lágrimas, os anjos param de chorar, eles têm que cuidar de tantos e de si. Anjos choram doído, mas choram de uma vez, desabam rios de lágrimas, mas é um único alvoroço apenas. Aos anjos, como às poetisas, a dor é mais doída, o sentimento é mais sentido, até maquiam seus semblantes, mas se erguem do lamaçal com asas ainda mais brilhantes; pena que às vezes demoram em se ver no espelho. Ah, mas eles se vêem, vêem sim; já vi anjinho assim no espelho lá de casa, faz tempo, mas eu vi sim.
Por: André R. Melchiades Sexta-feira, Fevereiro 15, 2008
PERMANECER, CONTINUAR
Não pude dar asas ao meu anjinho azul, não, não deveria ter sequer pensado isto, mas, sou humano, errante: pensei.
Pus-me em resignação a seu proveito comedido, e, creiam: senti a vida fluindo em minhas artérias. E o anjo pouco usufruiu, nadinha na verdade.
Poderia, sem desonra, sentir-me pleno agora, poderia mesmo deixar-me daqui* e me daria por feliz, mas é somente quase, pois meu anjo tornou a chorar.
Deveria ser proibido aos anjos chorar.
Vetei-me ao adeus, então em vigília fico aqui (dor em coro), mas somente se o anjinho carecer, tomara que não...minha única meia verdade até hoje ao meu anjo.
Por: André R. Melchiades Quinta-feira, Fevereiro 14, 2008
LÁGRIMA DE ANJO
Eu ouvi um anjo chorar. Vinha de uma dor contida, contínua, mas perene; este é meu anjo: não se desmancha. Ofereci, humildemente e inocentemente, uma paz, um afago, um afeto. O anjinho até suspirou e chorou diferente, menos doído. Depois o meu anjo nem chorou mais, até ria, o sorriso mais lindo de Deus. Mais depois ainda até quase se esqueceu do que doía; lágrima de anjo é séria como sangue, não pode se esvair muito. Em silêncio, agora suspiro, sei que tentei, quis eu ser o anjo do meu anjinho azul.
Por: André R. Melchiades Quinta-feira, Fevereiro 14, 2008
IRONICAMENTE
Ironicamente, meus olhares turvaram os sonhos. Já não vejo as cores em cores. Se sazonal, não sei, não adivinho o saber, mas já não vejo sonhos azuis, ironicamente.
Por: André R. Melchiades Quarta-feira, Fevereiro 13, 2008
[ ]
Só para mim. Somente a mim. [Ouve,] se ouve: por mim.
Um universo de mim mesmo [é seu mundo], qualquer mundo, quaisquer.
Meias palavras, meia vida alheia, [minha vida] toda.
São os olhos que vejo, os únicos que valem, os que me cabem[!!!]
Por: André R. Melchiades Terça-feira, Fevereiro 12, 2008
VISCERAL DEMAIS
A parte de mim que mais sou eu é visceral.
Pouco fui pra fora de mim, talvez menos que pouco, só não posso dizer que nunca.
Outro pouco de mim é perpétuo nos disseres, mesmo se contradizendo em míseras ações incertas.
Pouco mesmo é o que me conheço, não falo de mim pra mim mesmo; só me esculacho.
Ironicamente, sei de tudo sobre mim, mas não me reconheço, sou mais quando não sou nada.
Meus pecados, todos os têm, são só meus, este é um pecado que não me imputarão.
Quem já viu uma lágrima escorrer e fazer ponte entre os lábios saberá me ler, mas dificilmente deixarei entender.
Por: André R. Melchiades Segunda-feira, Fevereiro 11, 2008
TIC, TAC, TIC, TAC
O sono não me quer. Há tamanha ausência em mim mesmo. Queria outro milagre após infindas preces atendidas, mas seria abuso. Ausentei-me de mim, não me encontro em nada de mim, quis o abraço, meio aos soluços e o abraço não pude, não pode, até entendo, compreendo, mas não se nega um abraço. Quem sabe neste alvorecer ainda eu durma e possa em sonhos furtar abraços de anjos dos céus*...quiçá..
Por: André R. Melchiades Sábado, Fevereiro 09, 2008
DULCÍSSIMA
Mel, pouco, mas é doce, deixo ser pouco.
Doce, pouco, nem enjoa, nem enoja.
Sede, menos, doce pouco.
Ao meio, tanto amargo, meio-amargo, ainda doce.
Escorre, se derrete, lambida furtiva.
Suspiros, de amor distante, de doce torturante, qual?
........Se fores o doce: lambuza-me, louca!!
.............Se fores o amor: nem dói, se dói, dor pouca, amor é doce*.
Por: André R. Melchiades Quarta-feira, Fevereiro 06, 2008
MORFEU
Sonho os seus sonhos, aqueles tantos que sei e tantos outros que imagino serem seus. Os quero todos pra mim também, assim são os meus: deliciar-me com os seus desejos e deleites. Tardeia, mas não esmorece; esperança e amor meus; pena causa à demora, à você. Vem, lhe espero na esquina da minha vigília noturna com os devaneios insones.
Por: André R. Melchiades Segunda-feira, Fevereiro 04, 2008
UM DIA (PÁSCOA) EM LISBOA
Tenho-lhe nas coisas que me lembro, que nos lembram, que nos encontro.
Nunca navegamos de desencontros, desacertos; tudo tão claro como a necessidade da distância.
Ponho um sorriso em sua face: sinto, ouço e espero.
Rua sua: são doces os perfumes de madeira; doce por mim, madeira por você.
Uma surpresa a cada voz de sono, de vontade, de dúvida e duvida?
E se me canso, durmo, sonho e lhe tenho em cada coisa que me lembrar.
Por: André R. Melchiades Quinta-feira, Janeiro 31, 2008
ÍNFIMOS DELÍRIOS
Ainda não é para mim. Tempo é demais, qualquer tempo é demais. Delírios rompantes são demais, deixe-os por menos, ínfimos já me servem. Agora tem uma garoa fina, fria; meio Sessão da Tarde e me lembro que garoa é quase chuva, quase chovo junto, mas não, porque não quero mais. Vou descer meus cinqüenta e seis degraus, correndo de olhos abertos, peito estufado, bradando meus desatinos com os braços esticados o mais possível e agarrarei cada gotícula que me saudar; afinal pelo menos a garoa veio me acariciar.
Por: André R. Melchiades Quarta-feira, Janeiro 23, 2008
EM BUSCA DA INOCÊNCIA PERDIDA
Não que me ausente da vida, mas há um quê em omitir-se, vê-la como um espectador.
Tenho saudades dos sorrisos lindos e tímidos. Agora me parecem maliciosamente fáceis demais e dados a quem os quer. Encantava-me a vergonha sutil de deixar a pele vermelha, foi-se.
Furto olhares que não são pra mim: tão fútil é a paixão alheia.
Crio as pessoas que quero, pois das que vejo passarem a minha frente só preciso vê-las mesmo, afinal o tempo machuca e as transformam, mal as transformam.
Não se roubam mais goiabas, tiram-se vidas. Goiaba é mais gostoso, oras.
Dizem que os sonhos carecem de cifras, quem dera pudesse comprar os meus, que fosse um único. Meu delírio rompante é da alma, e pior, sei que não se pagará e o levarei pra eternidade.
Minhas palavras já não encontram eco, tudo bem eu nem ligo, tem que se chegar ao inferno para achar que o purgatório é o céu.
Por: André R. Melchiades Terça-feira, Janeiro 15, 2008
PÓLOS N
Não havia um dia em que ela deixasse de ser agraciada pela luz da manhã. Abria a cortina, rompia um novo olhar e estava o sol a lhe paparicar.
Muitas manhãs de dias claros seus olhinhos se fechavam um tiquinho ao brilho do amigo incandescente. O sorriso que a moça despejava, o mais belo de Deus, era sua doce recompensa.
Acontecia de pós noites cansadas ficar a lhe esperar como num último alento e mais intenso vinha, trazendo um espectro de luz aos pensamentos difusos da menina.
Ainda que o dia amanhecesse turvo, de nuvens pesadas, sabia ela que sobre os cúmulos-nimbos estava o sol a lhe espreitar e cuidar, sempre. Era um carinho gratuito, desprovido de retribuição, de nada, era afago de amor apenas.
E houve que um dia parecia chover lágrimas de sangue. Descera do céu densas rajadas em forma de tempestade que se somaram com as águas que dela também minavam. Caminhou em meio ao jardim, rodopiando de mãos espalmadas para cima, fazendo arco com seu vestido rodado. O seu lamento trouxe lágrimas rubras dos deuses, chovia e as águas se misturavam, se sentiu só. Assim que seu pensamento ardilosamente versou sobre um falso abandono, espoca um raio intensamente brilhante que lhe dilata as pupilas. O raio cresce violentamente acima e rompe uma brecha entre as pesadas nuvens. Um tímido pingo de luz aponta brilhante e cresce. Ganha coragem, força, rasga as nuvens e ainda mais. Um cone abrilhantado a envolve, acaloradas as águas, todas, secam. Sentia-se tocada, protegida por um carinho distante, coisa sutilmente intensa. De sorriso refeito retoma seus pensamentos. A passos lentos, despede-se do sol, caminhando rumo á casa. Contudo sabia que agora o teria não só nas manhãs, o trazia definitivamente também dentro do coração para todos os momentos de abrir de olhos e também com eles fechadinhos.
Por: André R. Melchiades Segunda-feira, Janeiro 14, 2008
1978 (o último epílogo)
Era noite de lua azul. O céu insistia em presenteá-la. Contudo ainda não havia paz naqueles pensamentos distantes de seu controle, talvez fosse inaceitável subtrair sua certeza; às vezes fugaz.
Debruçou-se perdidamente largada sob o parapeito que circundava o terraço. Ela não era parte de si mesma naquele instante e deixou-se chorar, permitiu-se ser fraca. Soluçou de perder o fôlego, também gritou de perder o ar e as densas lágrimas tornaram ainda mais ocres os tijolos que lhes davam sustentação aos cotovelos que por sua vez tinham entre si o rosto pálido repleto de cabelos lisos, despenteados, grudados, úmidos.
Já não queria ser dona de qualquer resposta, nem queria saber a resposta, não havia resposta. Havia apenas questões e já perdera tempo demais no desejo de saber, conduzir tudo. Agora era tempo de deixar-se ir, de sonhar, de delirar:
- Estou com muitas saudades, você pode vir aqui hoje? – rezou.
- Nunca deixei de estar aí – jura que ouviu.
- Ah, só mais uma coisa, não tenha pressa pra ir embora, pois se vier é para sempre. – caçoando da veracidade dos céus
- Repito, amor, sempre foi meu desejo estar contigo e nunca deixei de estar. Deixa-me ir que agora é mais tarde que ontem e ainda não tenho uma flor* para lhe dar. – riu que desta vez ouvira sim!
- O quê? Ainda não tem? Mas tudo bem, se a flor for mais de duas eu lhe perdôo. – e já sorria.
- Espere por mim no portão que assim diminui a demora de poder lhe abraçar. – ah, ela estava nas nuvens.
- ........ - então não disse nada, ela está no portão à espera...desde já.
Por: André R. Melchiades Terça-feira, Janeiro 08, 2008
DESESPERAR
Meus sonhos nunca foram em branco e preto:
[Verdejei por sonhos Palestrinos, algo intensamente platônico para não ter a obrigação da reciprocidade.
Deleitei-me por “Pequeno Sonho em Vermelho” e jurei eterna aquela mais de hora sentado de olhos vidrados.
Vesti-me da mais cândida brancura para receber tantos anos novos na vã esperança de conseguir apenas tudo, nada mais, somente tudo que queria.
Ousei furtar-me ao luto no derradeiro adeus usando um colorido que mais vinha dos olhos, do que da alma mesmo.
Mantive os amores perfeitos com seus montes de azuis serpenteando dentro de mim, mesmo se distante estivesse, mesmo se assim quisesse... e, se desbota, não sou eu.]
Meus sonhos nunca foram, estão dentro de mim.
Por: André R. Melchiades Quinta-feira, Janeiro 03, 2008
SUAVIUM
Aquela melodia agora toca, permito que exista!
Traz aos meus delírios o sorriso único, olhos cerrados e cabelos afoitos. Lampejos intensos culminam no selar dos lábios, tal como se fosse verdade, verdadeira anamnese. Então na celeridade de que meus tormentos me conduzem, fatigado e realista, me recolho a minha clausura etérea.
A melodia se desvaneceu em meio aos soluços. O dia deitou-se pela enésima vez. Não me sinto mais presente, nem em delírios. Melhor acompanhar o dia, o anjo da guarda sussurrou.
Por: André R. Melchiades Sexta-feira, Dezembro 28, 2007
IRONIA
Silencie o que possa doer, talvez não pudesse desdizer depois.
Emudeça a voz perdida, não ouse se arriscar.
Aquiete o pulsar torpe por uma certeza dividida.
Censure suas palavras doces, mesmo que outras nem tanto.
Esconda os sons das frases escritas para se fazer ausente.
Permita-se ser covarde!
Por: André R. Melchiades Quinta-feira, Dezembro 27, 2007
MENOS CHRISTMAS
Se nao fosse recorrente o vazio da noite pequenina de Belém, falaria eu, mas enquanto devoram em nome do Pai, apenas desanuviando, de olhos moribundos num ponto distante do meu coração, desperto a alma lívida para um suspiro doído e escondido.
Por: André R. Melchiades Sábado, Dezembro 22, 2007
QUERO-QUERINHO
Inesperada, destemperada: aguardo!
Não muito, pois será inesperada.
D’outro tempo, d’outra vida quiçá: desamparada!
O bastante e perdidamente assim tolero: e gosto!
Talvez hoje, talvez nunca: até lá, sei lá!
Aos sonhos: já não sonho.
Vivo e revivo tudo: o que posso somente.
Que “quero-querinho”: sodade inocente!
Latente: tum, tum, tum.
Sorri e dorme.
Por: André R. Melchiades Sexta-feira, Dezembro 21, 2007
CLAREIA
E se fez dia.
No meio da escuridão houve um estrondoso raio recorrente, mais forte que o bater torpe do coração, talvez até sem ritmo ou num ritmo atordoado, mas se viera, viera intenso... e contido.
E, se fez dia.
Com a explosão branca, desgarrara a noite em apuros, parecia que esquecera de concluir seu ciclo e fugira em carreira. Ainda em seu manto negro disparara ao encalço da luz que havia despertado mais cedo, puro complô dos astros. Cedo não, no devido tempo que já devia!
E se fez, dia.
Trouxe o clarear a poucas almas despertas, era demasiado cedo para tantas -nunca tarde para outras -, mas trouxe o que pudera ter de mais límpido, puro mesmo. Acalentou a noite em seu repouso, seu regaço; seria por fim sua herança. Trouxe sorrisos, todos eles! Na paciente espera de despertar o mais belo sorriso de Deus. Pretensioso e ao mesmo tempo não; apenas lídimo, apenas.
Por: André R. Melchiades Terça-feira, Dezembro 18, 2007
CONTIDO
Ecoa um grito contido.
Um desesperar silente, quase inocente.
Viro, reviro, transpiro inerte.
Anseios se juntam num curto suspiro.
Dôo sorrisos, não endosso o amargor,
Já me furto às tantas tristezas.
À minha alma imploro sôfrego,
Os pensamentos me traem, saem difusos,
Palavra alguma se ouve, uns as sentem.
Afora de mim, o colosso se impõe rude,
Mas de olhos fechados a criança ressurge.
O orvalho da manhã me fez lembrar:
“Garoa é quase chuva“
E desabo com a tempestade,
Também estou chovendo.
Por: André R. Melchiades Domingo, Dezembro 16, 2007
OUTRA VIDA
Tenho uma outra vida dentro dos meus sonhos.
Nesta vida não há dor, não há sangue, até os medos são de mentira, sequer sonho em preto e branco, tenho sonhos de um colorido azulado e por serem meus; todos os finais são felizes. Se me deleito em sórdidos devaneios, meus delírios não machucam, nem ferem, tampouco causam dor; vivo a melhor vida, a minha e controlo a de todos. Sou um deus bom de meus ensaios de felicidade, se erro a volatilidade desta vida repõe tudo em seu lugar, se acerto a refaço e revivo.
Agora vou-me. Minha outra vida me espera, lhe encontro lá.
Por: André R. Melchiades Sexta-feira, Novembro 30, 2007
ÍMPAR
Nunca tive coleção. De nada.
Tudo para mim sempre foi ímpar e mínimo.
Nem deuses eu colecionei. A onipotência Daquele já me impedia, até nos meus inúmeros momentos ateus.
Tampouco acho que fui colecionado também, tornei-me tão ímpar quanto desejara que fossem e foram; amigos todos; amores poucos.
Nunca tive coleção. De nada adiantaria, somos únicos.
Por: André R. Melchiades Quarta-feira, Novembro 14, 2007
EIS QUE ME VOU
Eis que me vou. Cansa-me pensar. Relembrar então, deveras! A benção da desesperança é nos tornar fortes; menos cruéis com o imutável desejo de ansiarmos mais, onde pouco já seria mais, bem mais. Minha mente é uma vitrine insana de pensamentos confusos por gente confusa, com gente confusa e de um mundo confuso.
Tornei-me escravo dos sonhos infantis e de outros um tanto noturnos. Sinto-os de cada forma, sofro por cada forma inatingível e contemplo quando lá concebo minha vida.
Um pouco de mim morreu, talvez um cometa passou e tenha levado, mas agora sou outro, mas sou igual; que azar o meu....Assim perdidamente sozinho dentro da minha mente, me deixe, pois eis que me vou.
Por: André R. Melchiades Sexta-feira, Março 30, 2007
QUERIA EXCLUIR O BLOG, MAS...
Acho que não consigo fazer com que as pessoas me entendam ou que ao menos gostem do que tento dizer. Até numa despedida ou mesmo num pedido de clemência parece que não sei fazer certo. Hoje estou mais confuso do que triste, estou desacreditando mais nas pessoas do que em mim, já não era sem tempo.
Tenho saudades diversas, medos também; certamente quando eu morrer as pessoas me entenderão melhor, é sempre assim: a gente morre, ficam as coisas boas e subitamente passam a nos compreender...não posso dizer que vejo a hora disto, mas, é assim mesmo.
Não consigo cancelar este blog. Tento e não consigo. Antes tinha ambição de usar para falar com o mundo, até que deu certo. Depois quis ser especial para o mundo, hummm, quase deu certo um tiquinho. Hoje não sei mais o que desejo, nem quem me lê (mas sei que lêem) me entende e nem sei qual motivo me leva a escrever. Talvez neste instante esteja voltando às origens: desabafando!
Vou parar agora, pela primeira vez estou me sentindo sozinho demais enquanto escrevo, já não me parece fazer companhia as palavras ou talvez elas não me respondam mais. Por ora irei parar....espero não sumir...mas honestamente...não sei de nada...não tenho mais verdades absolutas, nem mentiras certeiras. Passo a vez....e até outra vez...
Por: André R. Melchiades Terça-feira, Março 20, 2007
O MONTE
Eu sei. Sempre disse que era real a eternidade das minhas palavras. Mesmo ainda me metamorfosiando todo dia, meus desejos perpétuos serão perpétuos, senão não seriam palavras minhas. Não haverá um dia em que desacredite de cada jura, juro! Que meu tempo um dia seja o tempo comum de tudo ocorrer, correndo, pois sou de apelos fortes e imediatistas. Foi-se o meu ímpeto, ficou de mim apenas a essência e a certeza que erro onde poucos erram e acerto onde muitos erram. Um dia eu volto, refeito não digo, mas volto maduro, mais seguro. E se Deus realmente for misericordioso aceitará meus olhos em clemência e um certo receio do que vem.
Por: André R. Melchiades Quinta-feira, Março 01, 2007
IMPONDERÁVEL
Já era tarde, bem quase noite, mas era tempo.
Tempo de desesperar, de deixar de esperar. Azulou um começo de nova noite. Era mais tarde no romper da minha vida, mas se vêm tarde, nem sempre vêm frias*, pensei, aprendi, até chorei. Se das poucas certezas que tive na vida, a mais fiel é que confio cegamente em mim; agora refaço, revigoro: que seja assim! Confio e desconfio, sou assim! Confio e assim se vai e vou e vamos! Que meu talento, certamente o único, de amar incondicionalmente quiçá um dia seja bálsamo e não uma baioneta voltada a mim. Outrora me devia estas clarezas, agora tanto faz, tanto fez, me pouco importa ser vidraça, afinal sei que jamais serei pedra. Atiro-me, retiro-me, mas nunca atiro (farpas ao coração) e retiro (almas do coração). Calma não tenho mais, mas tenho paciência para controlar a ansiedade e desatinos. Rostos tantos me viram nestes anos todos e nem sei mais a expressão do último olhar de despedida. A dor troca expressões, doa formas e contextos diferentes, mas nada substitui a indiferença, a indelicadeza. Tantos são gentis no regozijo, contudo quisera gentileza na dificuldade, no romper, no estilhaçar, mas se for engano esperar, oras, erro e volto a errar, afinal me vem sempre a clareza de que espero o que esperariam de mim. Ninguém morre de mágoa, ainda bem.
E tardou mais a noite.
Não sei mais ser subjetivo. Cansei. Tenho medo, muita fé, pouca crença, esperança, mágoa e amor. Sou humano e pecador. Creiam, isto não é um desalento, é o meu ode ao imponderável, à minha incapacidade de enxergar a vida trocar de cores.
Veio o sono.
Meu repouso será tranqüilo enfim. Posso me ver sem máscaras, foram tantas, tantos papéis! Que seja breve o adeus e eterno o amor. Não agradeço porque seria piegas, então de olhar úmido voltado para meu peito, repito:
"-Amor, eu te amo!"
*Frase alterada de "Marília de Dirceu" - T.A.Gonzaga
Por: André R. Melchiades Terça-feira, Fevereiro 27, 2007
VERDES OLHOS
Verdes olhos como são
Vaga lua silencia e reluta
Vistes meus sonhos como estão?
Venha, candeia minha, se ajunta.
Vagarosa luz incandesça
Vigie meu sono leve
Vil medo que não desça
Vida boa me venha breve.
Viva de amor, de coração
Voz da razão ainda vem
Verossímil só é viver são
Veja: se ame também!
Vagueie na noite de chuva
Vicejar nunca mais não
Vigiarei assim cada curva
Vislumbrando uma paixão.
Por: André R. Melchiades Terça-feira, Fevereiro 13, 2007
CONTO PARA MEIA NOITE, NOITE TODA TALVEZ (CONTO)
O som de um blues tomou conta do quarto. Ela afastou-se. Ficou olhando para um ponto distante no horizonte através da janela. Sequer encostou-se ao parapeito. Sentiu uma brisa noturna acariciar-lhe o rosto, enquanto o fino tecido transparente da cortina bailava no ar, quase lhe tocando o rosto já um tanto corado.
De onde ele estava podia apreciar sua esguia silhueta. Aquele corpo delicado de quase menina ficava ali de costas para ele que se contentava em apenas apreciar a lingerie preta que contornava sua timidez. Os cabelos loiros e compridos acariciavam seus ombros salpicados por sutis e discretas marquinhas de sol. A pouca luz que vinha de uma lâmpada azulada mostrava que sob os mínimos fios claros do seu braço havia um corpo precisando de um afago, de calor.
Lentamente uns poucos passos o coloca a centímetros dela. Começa a sentir o cheiro adocicado do perfume que exala de seu corpo. Aproxima-se ainda mais pelas costas da amada. Envolve a fina cintura da moça com ambas as mãos, acariciando e trazendo-a para junto de si. Ela o sente mais firme, mais homem. Os corpos se encaixam. Com um sopro ele afasta os cabelos da nuca da amada e delicadamente toca-lhe com os lábios, úmido toque, lento, vagaroso toque. Ela suspira e com um movimento curto consegue curvar o pescoço para sentir o mesmo toque nos seus lábios. Fecha os olhos e o beija também, sem se virar. Os pensamentos se perdem, o beijo se eterniza, parece durar por toda uma vida. Como por encanto ela sente seu corpo sendo acariciado pelas mãos dele. Uma das mãos passeia com mansidão pelo seu ventre, tocando-lhe com as unhas, arranhando-a sem deixar dor e já percebe os pelos eriçados. Outra mão sobe por entre os seios, acariciando o fino tecido do soutien e um pouco do busto que escapa também; tudo se inflama ali. Não se fazendo de rogada, ela passa a mão por trás da nuca dele, trazendo-o para um beijo de línguas insanas e conduz habilmente a outra mão dele pra dentro do bojo do soutien, deixando-o tocar, adorar, desejar. Os quadris dela passam a mexer ao ritmo do blues, ele a acompanha. O beijo escapa das bocas ávidas e passa, ele, a beijar-lhe os ombros. Ouve-se um gemido quando ele lhe toca finalmente as costas e em vão ela cerra os dentes. Um beijo mais afoito rompe a presilha do soutien, então, ela abaixa os braços e a peça desliza para o chão, deixando nus os seios branquinhos e arrepiados. Não tenta esconde-los. Os lábios dele se apoderam das suas costas. As mãos chegam para ajudar com toques, leves apertos; uma breve massagem talvez. Ela mal consegue se manter de pé, mas ele insiste em mantê-la assim e se agacha beijando suas pernas, sentindo o contorno das suas coxas, a suavidade da sua pele alva. Como que surpreso ele se depara com aqueles montinhos lindos, timidamente cobertos por uma calcinha ínfima. Um suspiro brota do peito do rapaz. As mãos descem pelo quadril, envolvem a cintura da loira, contorna-a. Uns ousados dedos escapam pouco pela frente, quase sentindo os pelos pubianos, se não os sentiu. Mais animado que cruel ele aperta suas coxas dando-lhe um beijo demorado, molhado e os dentes se encarregam de livrar-se do último obstáculo que a cobria. Mordendo com suavidade ele abaixa a peça, vai descendo até ao carpete, deixando-a despida, totalmente. Rapidamente ele se põe a sua frente. Olho nos olhos, amor no coração. Ela se aproxima, senta-se a sua frente e tira-lhe a única peça de roupa branca que vestia. Sentada ainda, vai para trás da cama, mais para trás. Deita-se nua, lindamente nua. Parecia agora que a amada se vestia da timidez de sempre com um brilho no olhar, quase choro, quase debutante, quase pra sempre, quase único. Percebendo a insegurança de quem quer mimo, calmamente ele vai para a cama, coloca-se ao seu lado. Passa a admirar a linda menina que se entregara de coração e que agora estava a se entregar de corpo também. Toca-lhe a boca, admirando os lindos olhos verdes, acariciando o rosto de anjo e sela tudo com beijo calmo, sereno, eterno. As mãos se encontram acima dos travesseiros, se entrelaçam e se apertam mais, mais, mais e muito mais.
Por: André R. Melchiades Domingo, Fevereiro 04, 2007
"SACARINA (você não é o que parece)" *
Ela vigiava seu sono. Escapava do amado um leve suspiro. Eram doces seu hálito de anjo e o veneno dos seus sonhos de traição. Jazia seu amor e ela não sabia; sentia apenas. Tinha que amor era para sempre, as escolhas seriam para sempre ou simplesmente para nunca mais, acreditara que nada se amava pela metade, porém nunca mais é uma promessa que jamais soubera cumprir.
Finalmente o amado desperta. Olhar perdido de sono acabando e uma simpatia ímpar de peso na alma lhe fez dar um beijo seco nos lábios da menina que inesperadamente sorriu. Por minutos pensou numa vida toda e cogitou em dar de ombros, passar mais uma vez pelos burburinhos achados das incursões do amado, mas uma troca de nome ao que ele lhe diz bom dia trouxe novamente a ira ao seu peito, trouxe enfim o "nunca mais". Passou, ele sequer percebera o equívoco, levantou-se em busca das roupas que ainda, cúmplices da sua afoita chegada, estavam espalhadas pelo quarto. Alheio ao que acontecia na cabeça da, dita, amada agachou-se para apanhar a camisa e num súbito instante pode se ouvir á léguas de distância um grito forte oriundo de uma faca atravessando lentamente um peito inerte. Nada se ouvia mais. Então o farfalhar de aves sinistras interrompe o silêncio que perpetuou aquela cena: uma mulher sobre seus longos saltos bate a porta atrás dela, deixando na beirada da cama o olhar deprimente de um homem adulto chorando seco com uma aliança na palma da mão esquerda, tendo a outra presa ao anular da mão direita. Desta vez, sim, ela o usara para os instintos mais primitivos, o possuíra e satisfeita se foi. Sequer olhou para trás, pois senão voltaria, sabia de sua fraqueza, de sua bondade talvez e do seu amor então, ah, nem se fala.
Caminhava pensando que a faca que cravara no peito do ainda amado doía mais nela do que nele e iria doer ainda por muito, muito tempo. Não que desejasse, mas sabia que um dia a faca enferrujaria no peito do amado e aí sim, sua dor seria finalmente latejante. Só ansiava que quando isto ocorresse o ferimento que também lhe causou estragos já estivesse cicatrizado, pois o amara mais que a vida.
Toca o telefone, era ele, com a faca enferrujada no peito...
* Ouvindo Érika Martins, então....
Por: André R. Melchiades Domingo, Janeiro 28, 2007
UM BREVE ADEUS
Quando ela abriu os olhos a tal luz branca não estava lá. Não havia luz alguma. Também não havia passado breve filme nenhum sobre sua vida naqueles instantes. Pensara que se estivesse viva, não teria nada mágico em ficar perto da tal travessia. Precisava saber se estava viva, mas de olhos abertos só via o teto branco e ouvia uma espécie de apito agudo de uma máquina em intervalos cíclicos. Respirou fundo e o peito doía. Abaixou os olhos e viu-se presa por um emaranhado de fios, percebera seu estado de morbidez. Vinha agora à mente os seus últimos momentos de lucidez antes de acordar ali onde estava deitada:
"Caminhara ofegante pelas escadarias da empresa, com papéis em baixo dos braços, folheando outros tantos e lendo avidamente um em especial. Carregava ainda o celular junto ao ouvido, discursando em monossílabos e pensara naquele breve instante que não tinha perspectiva nenhuma para a noite, para o final de semana, para o ano; a não ser resolver aqueles problemas. Sua vida havia se tornado amargamente rotineira e sem graça, meramente cotidiana. Nem dos poucos amigos, se um ou dois, tivera notícias havia anos. Pensara que nem o nome do porteiro do seu prédio ela sabia e tampouco ele sabia direito quem era ela. Deu-lhe um aperto, será que o porteiro sentiria sua falta se ela sumisse? Sim, aquele porteiro que não poderia descrever, pois nunca reparou nele. Quem sentiria sua falta? Quem choraria sua perda no seu último dia? Um enorme vazio se instalou dentro do seu peito. Tudo isto passara ao mesmo tempo em sua mente, mesmo falando ao telefone, pensara em tudo voluptuosamente, mas de súbito o aperto se intensificou e o dia virou noite. Pronto, acordara ali naquela maca totalmente inerte."
Lembrando aos poucos lhe deu vontade de que tudo tivesse se encerrado por ali mesmo, mas via que lhe apareceu mais uma chance e pior, sabia que a usaria da mesma forma de antes. Desta vez uma lágrima escapa timidamente, não conseguia escondê-la de ninguém. Tentou contê-la com as mãos, contudo percebe que seus movimentos estão lentos demais para alcançar a lágrima antes que caia no lençol branco do hospital. Uma mão delicada, com dedos finos e brancos faz este trabalho para ela, não permite que umedeça o rosto. Virando devagar a face pálida ela nota uma estranha simpática vestindo branco, notadamente uma enfermeira, que sorri com doçura acariciando seus cabelos lisos, ajeitando sua franja. Uma troca de sorrisos e afeto se passa naquele instante. Sonhara tanto com uma dose de carinho sincero e descomprometido, porém só o conseguiu quase à morte, através de uma estranha. Sentia no toque da enfermeira um calor incomensurável, passava-lhe paz ainda. A visão tomou prumo e não mais se sentia tão fraca, sabia que se fortalecera com aquele gesto afetuoso. A enfermeira ainda dizia sorrindo coisas inaudíveis, mas certamente acalentadoras, sentia dentro da alma que era isto. A moça tenta se levantar, soltando todos os fios que a conectavam àqueles aparelhos. Atônita a enfermeira nota a rapidez descoordenada com que a moça tentara por a roupa e ainda repartir os cabelos com as mãos, arrumando os cílios; parecia em transe. Mesmo tonta, ergueu o peito e se pos a sair, mas não deu dois passos, caíra, lentamente, morta, nos braços da enfermeira que a ampara. Do momento de seu desmaio até o fatídico tombo ainda tivera tempo de dizer:
"-Enfim, não morrerei sozinha sem ter alguém que me ame ao meu lado, obrigada."
Por: André R. Melchiades Domingo, Janeiro 14, 2007
..........
(Sem título)
De olhos abertos fui. Não via nada. Fui assim mesmo.
Chovia e choravam também. Tantas eram as águas.
Nem escuro estava, mas não se via nada, nada.
Havia pessoas, de todos os tipos, todas as cores, todos os odores e não havia ninguém.
Os vivos não ouviam o meu silêncio, já os mortos não sei, ainda.
Então andei de um lado ao outro até cansar. Pensei: Por que eu andava? Parei.
Agora sim cansado estava. Cansei do cansaço, não de cansaço. E não sentei.
Ajoelhei-me, mas não por fé, pois esta me foi faz tempo, por medo Dele.
Implorei, faço isto de coração, e não chorei, lágrima uma nem tinha.
Quando muito havia dor, talvez pavor. Havia perdões a doar, a pedir.
Entregue. Despido de orgulho e de quaisquer ritos.
Ergui os olhos e se disse algo fora com eles.
Minha paga um sepulcral silêncio.
Cerquei-me apenas com meus poucos pensamentos confusos.
Triste. Apenas, triste.
Eu que já não era visto, agora também não via ninguém.
Agora escuro estava e eu não sentia nada, nem havia nada.
Talvez os mortos agora me ouçam, não, eles não ouvem, Ele não houve.
Por: André R. Melchiades Sexta-feira, Janeiro 12, 2007
O CÁLICE E O VENTO
De cristal era sim ou talvez fosse, não sei.
Perene assim ficava serenando na janela.
Já nem lembrado era mais, jazia em seu tempo.
Apenas eram solavancos que lhe sobravam.
Parcos eram os olhos que lhe viam, se viam.
Então o vento teimou em visitá-lo, assombrá-lo:
-Um dia lhe derrubo - dizia faceiro.
E soprava, soprou e ainda sopraria mais.
Mesmo assim em pé ficava, resistia.
Não por teimosia: por princípios.
De tanto soprar o vento cansou e se foi.
Nunca mais de vento soubera, nem quisera também.
Porém um dia soprou rasante a noite: era o vento.
Deliciou-se vendo a lua brilhar no cristal,
Que lívido despencava do parapeito.
Poucos não eram os estilhaços agora no chão.
Pisado e esquecido o cálice largado ficou.
Até que outros ventos os cacos espalharam afora.
Os dias passaram lentos e voltou enfim o vento.
Passeou sobre a janela, alisando-a e aninhou-se ali.
Um aperto lhe deu e triste pensou:
- Onde estaria, que fim ele levou?
Por: André R. Melchiades Quarta-feira, Janeiro 10, 2007
ELA NÃO VEM
O dia amanheceu. Amanheceu escuro como noite. Ela não veio, outra vez. Chovia e não era motivo, não havia motivos, apenas chovia e me iludia crer que este era o motivo. Mas não choveu a manhã toda, tampouco uma hora toda, e ela, não veio. Sabia que não viria, mas o desejo me trazia quem não via. O sol apontou, teceu cores vivas em meio às gotas de chuva restantes, via seu sorriso em cada brilho, os olhos em cada cor e sentia seu perfume em cada sopro dos ventos, mas ela não vinha; sequer um sussurro, enfim eu me enganara ouvi-los, iludia-me. Abri todas as portas, janelas, coração e ela não veio, talvez fosse medo, talvez não. Agora voltava a chover; ainda bem. Assim ela não vem, posso me furtar da verdade mais uma vez. Ela não vem porque garoa é quase chuva.
Por: André R. Melchiades Sexta-feira, Janeiro 05, 2007
À QUEM VAI CHEGAR
Entra! Que eu não vou sair, mais.
Mas não demore porque a porta se fecha.
Fecha como meu coração ficou.
Ficou trancado dentro do peito.
Peito este que ardia ao ouvir seu nome.
Nome seu, soava como doce melodia.
Melodia assim é que me trazia você.
Você era apenas uma lembrança.
Lembrança boa sempre me vinha.
Vinha com você nos sonhos, desejos.
Desejos eram tantos e puros.
Puros, parece ironia, e era.
Era a ironia de não estarmos juntos.
Juntos, lembra-se, éramos felizes.
Felizes os dias em que só ríamos.
Ríamos até das tristezas também.
Também não precisávamos de muito.
Muito pouco nos deixava assim
Assim com cara de adolescentes apaixonados.
Apaixonados pela inocência maliciosa.
Maliciosa você ria mordendo os lábios.
Lábios mais lindos que eu já beijei,
Beijei muito e parece ter sido tão pouco.
Pouco tempo mesmo que fossem mil anos,
Anos de eterno amor! Abri meu coração e disse: entra!
Entra! Que eu não vou sair, mais.
Por: André R. Melchiades Terça-feira, Dezembro 19, 2006
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